O Cartaz – uma crônica atemporal

POSTADO POR thiago 2, março, 2021
Comportamento

Luiz Augusto M. da Costa Leite

Código Penal    Art. 331

Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela.

Pena: Detenção de 6 (seis meses) a 2 (dois) anos ou multa.

O cartaz não se referia a qual funcionário, se o que estava atrás ou diante do balcão. Valia o que estava escrito.

Oranizações constroem Ilusões dessa natureza para ordenar o comportamento das pessoas. Criam seus manuais e controlam-se.  Zero desvio, zero riscos. É a burocracia, em seu sentido vulgar. Processo e não propósito. É como uma ponte perdida que liga o nada a coisa nenhuma. Mas foi bem construída. O importante é fazer e não em fazer o certo.

O funcionário que exige tantos protocolos é figurante de um enredo bem mais complexo, fora de seu controle, embora controle os outros e seja controlado o tempo todo.

Quem nunca viveu situações semelhantes nos escritórios?

Não é de hoje; a burocracia invadiu o digital mas manteve sua alma. O cronista Rubem Braga, lá em 1958, explorou esse traço cultural de nosso Brasil organizado. Eis a sua história:

Um Mundo de papel*

Foi em Minas, creio, que um secretário de Estado mandou afixar em sua repartição esta frase com um conselho aos funcionários: “Não basta despachar o papel, é preciso resolver o caso”.

Quem fez isso deveria ser um empírico, sem uma verdadeira e fina vocação burocrática. O exemplo mais brilhante dessa vocação deu-o anos atrás um cavalheiro cujo nome não sei; era presidente da Câmara Municipal de São João de Meriti.

Foi o caso que morreu um vereador e seu suplente quis tomar posse. O presidente exigiu dele a certidão de óbito do vereador. O suplente disse que não o trouxera, mas podia providenciar depois; achava, entretanto, que não havia inconveniente em tomar posse naquela mesma sessão…

O presidente respondeu:

– Não é questão de conveniência ou inconveniência. O que há é impossibilidade. O suplente não pode se empossar sem estar provada a morte do vereador.

– Mas V. Exa. Não ignora que o vereador morreu…

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas V. Exa. Tomou conhecimento oficial da morte; V. Exa., como presidente da mesa, praticou vários atos oficiais motivados por essa morte!

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas o morto foi velado neste recinto. O enterro saiu desta sala, desta Câmara!

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas V. Exa. Segurou uma das alças do caixão!

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

E não se foi adiante enquanto o suplente não apresentou a certidão de óbito. Todos os argumentos esbarravam naquela frase irretorquível, perfeita, quase genial, que mereceria ser gravada em mármore no frontispício do DASP**: “A prova do falecimento é a certidão de óbito”. Só os medíocres, os anarquistas e pobres-diabos condenados a vida inteira a ser suplicantes ou requerentes e que jamais serão Autoridade, não percebem a profunda beleza dessa frase. Eles jamais compreenderão que uma pessoa não pode existir sem certidão de nascimento nem pode deixar de existir sem certidão de óbito. Que acima da vida e da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça está essa coisa sacrossanta: o papel.

Eu também quero fazer uma frase. Proponho que o DASP investigue o nome daquele antigo presidente da Câmara Municipal de São João de Meriti e, no dia em que ele morrer, mande gravar em seu túmulo (depois, naturalmente, de exibir a certidão de óbito) esta frase de suprema consagração burocrática: “Ele amou o papel”.

. _ .

A burocracia se apoia em padrões racionais, assegurando que as organizações não saiam dos trilhos. É um fim em si. Difícil suportá-la num mundo de flexibilidade, transformações e criatividade. Atenção:  pode estar na nossa tela.

Rubem Braga e o secretário estavam certos: não basta despachar o papel, é preciso resolver o caso.

 

* in 200 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga – pág. 224 – Ed. Record – 9ª edição – 1978
**Departamento Administrativo do Serviço Público, criado em 1938 como órgão formulador de reforma administrativa do Governo Federal e extinto em 1986.
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