PELOS DEDOS DE NELSON FREIRE 

POSTADO POR thiago 17, novembro, 2021
Comportamento

Luiz Augusto M. da Costa Leite

 

Como deve ser um talento? Hora de aprender com Nelson Freire, cuja ausência será sentida para sempre.

Considerado um dos grandes pianistas do mundo,  personificou o talento em todas as suas expressões. Um legado para nós brasileiros, carentes de figuras que nos enlevem.

Não fez outra coisa na vida a não ser tocar piano, dos 3 aos 77 anos de idade. Poderia ter sido um virtuose que se bastasse. Mas daí vem a diferença entre ter talento, dignificá-lo através do trabalho e ser reconhecido.

Testemunhos recolhidos em seu passamento ilustram a  integração de pessoa, autor e obra. Algumas manifestações e excertos de entrevistas:

Integridade:  exemplo de integridade musical e profissional elevada ao ponto mais alto*. Uma profissão a serviço de um propósito de valor.

Autoria: era possível, num simples toque ao piano, saber quem o fazia**. A intervenção pessoal distinguindo-o do convencional.

Convivência: fazer música juntos representava sempre uma descoberta (com Martha Argerich)**. A coragem de, com o outro,  transgredir o estabelecido.

Humildade: ficou conhecido tanto pela modéstia quanto pelo talento insuperável*** Uma virtude pouco presente nas celebridades. Estar no Olimpo e saber que não é Zeus.

Pertinácia : Punha o sarrafo sempre na mesma altura, lá no ponto mais alto da trave****.  A cada concerto, uma nova escalada; o desafio da superação.

Criatividade: não ouço meus discos porque  se ouço fico querendo mudar******. Visão crítica do conquistado. Não basta melhorar, é preciso mudar.

Maturidade (aos 70 anos): não repito o que fazia quando era jovem, aprender uma peça em 16 dias. Aprendi a me conhecer melhor, respeitar, ouvir meu interior, meu ritmo pessoal******.  A sabedoria é conquistada a cada dia e não um acervo de memórias. Conhecer-se  com novos olhares e se sentir vivo.

Rebeldia: prefiro errar tudo a tocar burocraticamente******. O conformismo do pensamento burocrático destrói a arte e o trabalho. O burocrata tem medo de crescer.

Mudança: minha cabeça está sempre mudando, estou sempre buscando algo, sempre inquieto******. Mudança não é um projeto e sim  um processo existencial, acima do  mental.

Role models: não se limitavam a tocar; recriavam.****** Não transgrediam as partituras, encontrando ali espaço para  suas intepretações pessoais.

Consciência: o que estava em jogo ali era o imperativo moral do trabalho*****.  O trabalho é elemento integrador das virtudes humanas.

Legado: ele encarnava os valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente*****. Memória a guardar e influenciar os pósteros.

Os dedos de Nelson Freire eram a ligação entre essência e consequência.  Em sua carreira, não precisava ser promovido  a regente ou diretor musical. Integrava-se ao corpo da orquestra, sua presença exigia qualidade e convivia com os regentes.  Quando só no palco, entregava-se à música e, democraticamente, a todo tipo de audiência. Uma lição final: a riqueza do talento é a preservação da individualidade na construção do coletivo.

Certa vez, ao tocar Chopin em sua casa, virou-se ao final e encontrou o caseiro com lágrimas nos olhos. Pode haver melhor resultado para a manifestação do talento?

 

Legendas:

* Philippe Cassard – Pianista francês – Site Decca

** Isaac Karabtchevisky – Artigo – O Globo 02/11/2021

***Silvio Essinger – O Globo 02/11/2021

**** João Moreira Salles – citado no artigo de Silvio Essinger

***** João Marcos Coelho – Valor Econômico 05/09/2014

****** Nelson Freire, como citado nas matérias acima

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