Liderança Canônica

POSTADO POR thiago 16, junho, 2021
Comportamento

Luiz Augusto Mattana da Costa Leite

 

São incontáveis os perfis de liderança. Na maioria das vezes, propostas receitas de “sucesso”, tão elaboradas (ou simplificadas) nem sempre alcançáveis pela condição humana.

Nos tempos atuais, por exemplo, o perfil inovador é o mantra.

No fundo, todos parecem caber num mesmo modelo: gerar motivação e produtividade, inspirar, engajar, alinhar, reconhecer e recompensar as boas práticas de gestão.

Acontece que nem tudo é tão cristalino.  Contextos mais ou menos inovadores e líderes mais ou menos transformadores produzem culturas e comportamentos que se ajustam. Definem objetivos e produzem resultado. Nem tudo, no entanto,  cabe num quadrante. As sinapses entre células dependem do tipo de desafios que lhes são propostos e das recompensas imaginadas. Cada um e cada tempo à sua maneira.

Vejamos um tipo peculiar, o Líder Canônico. Machado de Assis, descobriu-o na figura do cônego Ildefonso, tio de seu personagem Brás Cubas*:

Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contido não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, as hierarquias, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração de mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não estou se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a história do símbolo de Niceia; mas ninguém nas festas cantadas, sabia melhor o número e caso das cortesias que se deviam ao oficiante. Cônego foi a única ambição de sua vida; e dizia e coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuía algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia absolutamente de força de as incutir, de as impor aos outros. 

Note-se o vinha antes da sacristia que do altar. Obediente aos cânones da instituição Igreja, daí Líder Canônico.

Adequado ao século XIX, mas um modelo cultural antiquado para o século XXI? Será que não existe mais?

O cônego era mais um mensageiro que um evangelista. Seguia a liturgia dentro de um ritual imutável. Mais professor fundamentalista do que mestre vanguardista. Tradutor ipsis litteris das mensagens divinas. Influenciava seu rebanho na temperança, não na ousadia. No máximo coach, jamais mentor. O ostensório** era tão importante quanto a hóstia, guardada a sete chaves e oferecida aos fiéis confessos.

É possível que subir ao púlpito fosse um prazer por cumprir um dever. Não pregava com sermões autorais, era preciso pensar no e como o Senhor, criador do universo e da verdade. Não que isso fosse enfadonho para os fiéis. Se diferente, não teria subido na hierarquia, chegado a cônego. Líder por exemplo, respeito e acolhimento dos paroquianos e obediência aos cânones do apostolado. Virtuoso, enfim. Um líder canônico.

O século XIX foi um período de grandes inovações e havia várias maneiras de as observar e acompanhar. Uma delas era ser o cônego Ildefonso.

Machado, em outro texto, falou de passagens secretas que ligavam o passado ao presente. A História as preserva. Onde estão os Ildefonsos XXI?

*Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo XI

** Receptáculo que, normalmente de ouro ou prata, guarda a hóstia antes que ela seja apresentada aos fiéis

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