‘PROPÓSITO, ANTIFRAGILIDADE E COMPLEXIDADE’​

POSTADO POR thiago 22, julho, 2019
Comportamento

Por Francisco Baqueiro
Diretor fundador da Synthesis Consultores Associados

Para tentar entender a realidade, tendemos a ordenar os fenômenos, rejeitando a desordem e o incerto, isto é, selecionamos os elementos de ordem e de certeza eliminando elementos ambíguos, visando clarificar, distinguir, hierarquizar e… controlar. Porém tais operações, necessárias à inteligibilidade, implica no risco de nos tornarmos cegos à realidade, ao não considerarmos elementos importantes do todo.

O termo complexidade vem de complexus – aquilo que é tecido em conjunto. A complexidade é constituída de elementos heterogêneos inseparavelmente associados que contrapõe o uno ao múltiplo. A complexidade é o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações e acasos que constituem o nosso mundo fenomenal, ela se apresenta com os traços inquietantes da confusão, da desordem, da ambiguidade e da incerteza.

Apenas em modelos mecânicos as variáveis tendem a se repetir, mas quando se trata de modelos orgânicos, devido à complexidade, a probabilidade de que todas as variáveis se repitam exatamente da mesma forma, é muito pequena. No mundo orgânico, cada ciclo é novo em relação ao anterior e diferente do ciclo seguinte, e isso não é bom nem mal, apenas… é.

A complexidade nos faz um convite ousado e irrefutável a mergulharmos na incerteza, no imprevisível, no imponderável e na determinação de construirmos coletivamente novos caminhos e a edificarmos as bases de um novo mundo. Afinal, nossos ancestrais já fizeram isso antes, e… bem ou mal, cá estamos, contando suas histórias! Talvez seja porque não tenham se saído tão mal assim – caso para se pensar.

Precisamos olhar para as empresas como sistemas vivos. Assim sendo, é excelente poder contar com a Indústria 4.0, que numa visão otimista, chegou para liberar o homem de atividades mecânicas e repetitivas, para que este possa se ocupar com desafios mais nobres, condizentes com sua essência orgânica (alguns empregos desaparecerão, certamente sim, mas muitos outros virão), rumo à Sociedade 5.0 que já se desenha por aí. A Sociedade 5.0 visa usar as novas tecnologias para melhorar a qualidade de vida das pessoas, ajudando a resolver problemas tipo: desastres naturais, mobilidade, segurança, saúde, longevidade, etc. Trata-se de colocar o ser humano no centro de tudo – mudança que utiliza a indústria 4.0 para a criação de cidades inteligentes e verdadeiramente humanas. A Sociedade 1.0 se baseou na caça e na coleta, a Sociedade 2.0, na agricultura, a 3.0 – na indústria e a 4.0 se desenvolveu a partir do advento do computador pessoal, inaugurando a era da informação.

Estudos mostram que todos os sistemas vivos, em relação a crescimento e desenvolvimento são criativos, flexíveis e versáteis. Cada célula de um ser vivo, tem no seu núcleo, todas as informações da matriz que a gerou (DNA), do todo em que vai se transformar e, inclusive, flexibilidade para enfrentar, com prontidão, os imprevistos que possam ocorrer. Diante da incerteza, da imprevisibilidade e da volatilidade, característicos desse mundo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) em que vivemos, cada célula sabe o que deve ser feito… como… e quando agir!

Tudo tem a ver com a questão do propósito. Propósito diz respeito à essência de um organismo vivo, deixando de ser visto apenas como metas e objetivos a serem perseguidos e passando a ser entendido e vivenciado como a motivação central que leva uma entidade a ser quem ela é. Nessa configuração, a velha ordem que determinava que ‘é preciso ter mais coisas ou mais dinheiro para fazermos o que queremos e assim podermos ser mais felizes’, dá lugar a uma nova ordem: ‘sermos felizes por estarmos sendo quem realmente somos e assim podermos fazer o que precisa ser feito a fim de termos o que desejamos’. Faz sentido? Precisamos primeiro SER para podermos FAZER algo que nos traga aquilo que queremos TER.

Nassim Taleb, em seu livro Antifrágil, desenvolveu um novo conceito que nos ajuda a entender o mundo VUCA de uma maneira alternativa à visão tradicional. É… não é lá um livro muito novo, mas tem o mérito de, ao analisar o significado de frágil, propor um novo termo para explicar o que seria o oposto de frágil (até agora não superado), que não é robusto, nem resiliente, mas sim ‘Antifrágil’. Antifrágil seria aquilo que, de certa forma, se beneficia, cresce e se desenvolve diante do estresse provocado pelo caos, a volatilidade e a incerteza. O conceito nos ajuda a lidar com os riscos presentes em nosso mundo moderno. Os mais fracos não resistem e sucumbem à ocorrência de eventos inesperados e voláteis, matéria-prima principal do conceito de antifragilidade. Por outro lado, afirma que modelos orgânicos são Antifrágeis por natureza por se tratar de sistemas complexos adaptativos, compostos por agentes que são diversos, interdependentes, capazes de se adaptar e conectados, entre outras coisas.

O conceito de antifragilidade, criado por Taleb, incorpora a consciência da existência, no mundo que nos cerca, de fatores inesperados e, diante desses fatores, nos convida a encarar a aleatoriedade e a imprevisibilidade com naturalidade e como fatores úteis para alavancar nosso próprio aperfeiçoamento.

A questão da FRAGILIDADE ou ANTIFRAGILIDADE, seja em nossas vidas como indivíduos ou na vida organizacional, depende do quão bem somos capazes de entender e lidar de modo eficaz com o mundo e seus diversos ambientes nos quais estamos inseridos, com as diversas variáveis e demandas que já estão por aí ou aquelas que ainda estão por vir.

Reflexões: VOCÊ É ANTIFRÁGIL?

• Ao fazer seu planejamento, você procura considerar um plano B, a existência de cenários inesperados ou apenas visualiza o mundo ideal?

• Você prefere lidar com os momentos de estabilidade ou de instabilidade?

• A ameaça do caos te assusta ou te motiva, te desafia?

• Você enxerga pequenas crises como problemas ou oportunidades de mudança?

• Nos seus projetos, você prefere ter tudo sob controle ou se virar diante do imprevisível?…

Gosto muito de uma afirmação de Walter Longo que diz que ‘as empresas não morrem apenas por fazer as coisas erradas … Elas morrem também por fazer as coisas certas por um tempo longo demais!’ Por não perceberem o que está acontecendo ao seu redor, tornam-se frágeis.

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